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"Ao contrário do zen, onde o objetivo é esvaziar a cabeça, na Falaterapia convidamos o paciente a aliviar o coração. "

Carlos Fernando Schinner (Cacá)

 

Certa vez, uma terapeuta muito querida, me contou que foi até um importante hospital de São Paulo que atendia pessoas idosas. Havia alguns estrangeiros ali, apenas contando os meses, dias ou horas, esperando a vida passar. Ao se deparar com uma velhinha de origem polonesa com 87 anos, propôs contar histórias divertidas, como forma de entretenimento naquele ambiente tão hostil. Foi quando, para sua surpresa, ouviu a seguinte reclamação, e que mudou definitivamente sua forma de ver as coisas: “-Minha filha, agradeço imensamente por sua generosidade em vir aqui, mas hoje eu não quero ouvir suas histórias. Eu quero, na verdade, contar a minha história, a história da minha vida! Quero contar como vivi os horrores da Segunda Guerra Mundial e escapei milagrosamente da câmara de gás. Quando eu tinha oito anos, pulei do trem em movimento apenas com a roupa do corpo. Aquele comboio nazista levava minha família e meus amigos e estava carregado de prisioneiros judeus, a caminho do Campo de Concentração e Extermínio. E por isso, e apenas por isso, estou aqui!” Moral da história: por que não ‘emprestar’ um ouvido a quem precisa?

Ju Veloso foto

Estou cada vez mais convencido de que saber ouvir deve ser mesmo um dom. Nestes tempos em que as pessoas têm opinião formada sobre tudo nas redes sociais, nos desacostumamos a prestar atenção no que os outros querem nos revelar. Pessoas passam por nós invisíveis no dia a dia, e tudo o que precisam é liberar as angústias guardadas a sete chaves, sem ter com quem compartilhar.

Essa minha habilidade de escutador certamente foi lapidada através dos anos, na simples compreensão de que o ego pode dar espaço ao olhar cuidadoso do outro. É um exercício permanente, que na forja da vida pode demorar décadas. No meu caso específico, foi uma troca de propósitos: entre o ser falador (sou comunicador profissional - trabalho em rádio e televisão há mais de 40 anos), pelo ‘ser escutador’, me colocando na posição de um ouvinte atento ao clamor do outro.

Os grandes entrevistadores sabem ouvir bem. Os poetas também. O mineiro Rubem Alves foi um grande poeta, um dos mais habilidosos com o uso das palavras. E do silêncio também. Foi ele quem cunhou o termo ‘escutatória’ em crônica publicada no livro O Amor que Acende a Lua (editora Papirus, 1999). Lá o grande escritor diz:

‘O que as pessoas mais desejam é alguém que as escute de maneira calma e tranquila, em silêncio, sem dar conselhos’. E completa: ‘A fala só é bonita quando ela nasce de uma longa e silenciosa escuta. É na escuta que o amor começa. E é na não-escuta que ele termina’. É o que os orientais chamam de ‘uma atitude zen’.

Quando o monge taoísta vietnamita Thich Nath Hahn trouxe para os Estados Unidos o conceito de mindfulness – a ideia central era manter a atenção plena em todas as atividades possíveis, incluindo a fala e a escuta. Além do foco permanente naquilo que estamos fazendo no momento (aqui e agora), somos convidados a deixar o nosso ego guardado na gaveta, pois nesse processo o importante é silenciar-se e ouvir o outro, e não falar (blá blá blá blá blá) como um descontrolado narrador de futebol no rádio.

 

Saber Ouvir: A Fala como Terapia

 

A ideia da Falaterapia surge em três momentos distintos da minha vida, todos – por sincronicidade – em anos sete!

Em 1997, quando estive pela primeira vez na Grécia, me deparei com a frase lapidar ‘Conhece-te a ti mesmo’ talhada no Oráculo de Delfos. É o axioma fundador da filosofia e da psicologia, um convite ao ‘olhar para dentro’. Pensei muito a respeito sobre nosso processo de autocura. Em Atenas, tive outra experiência incrível ao caminhar na praça próxima à Acrópole – a que os gregos antigos chamavam de Ágora. Como se tivesse sido transportado pelo tempo, me vi caminhando como um discípulo de Sócrates, o filósofo, que perguntava às pessoas de maneira sucessiva a questão primal da humanidade: ‘Quem é você’? O mestre convidava todos à reflexão sobre suas vidas e seus conceitos pessoais e políticos. Então, era através da maiêutica que o cidadão abria o coração e compartilhava seus conflitos para um ouvinte atento e participativo.

Em 2007, cursei filosofia na PUC-SP. Lá costumava questionar por que não ouvíamos as pessoas filosoficamente, como fazia Sócrates? Ou Aristóteles, que caminhava com seus discípulos em seu Liceu, ao que foram chamados de peripatéticos. Seria uma forma moderna de cura pela fala, amparados em técnicas milenares de argumentação oral, a filosofia clínica.

Dez anos depois (2017), já frequentando a Universidade Internacional da Paz (Unipaz), entendi que a fala também poderia ter aspecto terapêutico a partir dos princípios básicos da Psicologia Transpessoal. A ideia era mesmo ouvir atentamente o outro, que teria total liberdade para falar sobre seus problemas. Eu descobri que há poucas pessoas disponíveis e interessadas para prestar atenção nas dores do outro, e, por algum motivo, me sentia a pessoa ideal para que alguém compartilhasse seus conflitos guardados a sete chaves. Por vezes, temos vontade de gritar, xingar, desafogar as lágrimas, desapertar o nó da garganta, e botar para fora tudo o que está embrulhado no estômago. Para a grande maioria, não é fácil nos libertarmos desse lixo tóxico que gera dores, distúrbios e os mais variados sentimentos. No mundo atual temos pouco tempo para isso, andamos sempre conectados na internet.

Comecei então a formatar uma sessão de terapia diferente da psicanálise, pois apresenta algo especial, baseada principalmente em três pilares sagrados: a respiração no silêncio; o poder da fala de quem está aflito; e a arte da escuta do bom ouvinte, que o faz com atenção plena e de forma totalmente confidencial. Assim, a Falaterapia faz um mergulho nas dores da alma através da 'quebra de ego' do paciente, sem críticas, julgamentos ou interrupções por parte do terapeuta, em processo de imersão e emersão.

Acredito que a autocura se inicia a partir da fala do paciente e do silêncio atento do terapeuta, que é quase uma condição meditativa, um legado dos budas. Porém, há uma pequena diferença: ao contrário do zen, onde o objetivo é esvaziar a cabeça, na Falaterapia convidamos o paciente a aliviar o coração.


“A Arte da Escuta é o primeiro mandamento do bem cuidar”
(Roberto Crema)

 

Carlos Fernando Schinner (Cacá) é pós-graduando em Psicologia Transpessoal pela Unipaz São Paulo. Formado em Acupuntura Auricular com especialização nos Cinco Elementos da Medicina Chinesa, usa técnicas de meditação Zen, técnicas indígenas e medicina psicossomática. Como entrevistador, biógrafo e comunicador profissional de rádio e televisão aprendeu a ouvir as pessoas com atenção plena e enorme interesse, sem críticas ou julgamentos. Como ‘escutador’ criou a Falaterapia, e atende todas as terças-feiras na Unipaz SP. Também é formado em Tok Sen Mobá – técnica xamânica vibracional de cura.

Formação como Comunicador Social - Pós-graduado em Comunicação pela FAAP; formado em Publicidade e Propaganda pela ESPM-SP; formado em Jornalismo, Rádio e TV e pela Faculdade de Comunicação de Santos/ C.A.R.M.O.; também cursou Filosofia na PUC-SP. Trabalha desde 2002 no Grupo Bandeirantes de Comunicação.