A Arte da Alegria

Venho não sei de onde,
Sou não sei quem,
Morro não sei quando,
Vou não sei onde,
Espanto-me de ser tão alegre”.
(Adágio medieval)

O filósofo e escritor Clément Rosset ensina que a alegria é a força maior da existência do ser humano e não precisa se esgotar no feliz motivo que a provocou, pode ir além do mesmo. 

Pode ser experimentada como uma força transgressora, a arte de se alegrar em um contexto que não elimina a sorte adversa, o revés da vida, pois a alegria “(…) permanece indiferente a qualquer objeção”, explica Rosset.

A alegria não vem das coisas boas e nem das coisas difíceis, é uma ilógica rendição à vida, tal como ela. É estar de acordo com aquilo que existe, é conhecer o trágico e o jubiloso, é costurar o dia a dia com o fio da alegria. 

Na nossa cultura utilizamos a expressão “muito riso é sinal de pouco siso”, considerando a alegria como falta de juízo e sensatez. De acordo com Rosset, “[…] não há alegria senão louca – todo homem alegre é necessariamente e a seu modo um desatinado”. 

A alegria pode ser experimentada também como um ato sagrado, segundo Jean-Yves Leloup “quando fazemos bem aquilo que devíamos fazer, vem a nós uma qualidade de alegria que nos conduz ao louvor e ao agradecimento”.

Durante a pesquisa-ação que realizei com mulheres artesãs de Brasília(*), experimentei no corpo e na alma, a poderosa alegria do Encontro. A alegria de fazer, criar, brincar, reinventando tecidos que acolhem, aconchegam, aquecem, embelezam. A alegria de compartilhar cotidianos com cores variadas e surpreendentes, às vezes duras, ásperas, absurdas que, na sala de costura, adquirem a magia de tornarem-se também risíveis.

A alegria de vivenciar uma escuta sensível, aberta, amorosa, que verdadeiramente com-fia. A alegria de ver A COLCHA pronta, o visível parto de mãos que metamorfoseiam retalhos e vidas. 

A alegria gratuita de simplesmente se deixar contaminar pelas gargalhadas, pelas alegrias outras e ser só riso…

(*) Esse texto foi adaptado da Dissertação de Mestrado Retalhos d’alma: uma pesquisa ação sobre as repercussões do trabalho com retalhos no mundo da mulher arte-sã da Lydia Nunes Rebouças de Mello.

Lydia Rebouças é Psicóloga, Educadora, é Vice-reitora da UNIPAZ. Mestre em Psicologia, com 30 anos de experiência na área clínica. Co-Fundadora da UNIPAZ, onde atua há 30 anos, como Facilitadora de Seminários e Palestras. Participou da equipe que planejou o curso da Formação Holística de Base (FHB). Especializações com Dr. Pierre Weil (Psicologia Transpessoal) e Dr. John Pierrakos (Core Energetics). Criadora da Metodologia do Cuidado Integral: O Corpo, Texto Sagrado. Membro da Coordenação do Colégio Internacional dos Terapeutas (CIT). Escritora, Jardineira, Artesã de patchwork, Atriz, Bordadeira, Remadora e Aprendiz da Arte de Viver a Vida.

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