A presença da Grande Mãe

Era um encontro presencial depois de tantos meses de encontros via zoom. A alma só sabia sorrir com o reencontro de pessoas tão queridas que estão junto comigo nessa linda jornada que é a pós-graduação em Psicologia Transpessoal, na Unipaz São Paulo. O módulo era Pintura Espontânea e a facilitadora era a Layla. Ah, que gostoso conhecê-la tridimensionalmente, palpável, abraçável, audível por todos os poros. 

Os momentos de pintura eram antecedidos por meditações e, no segundo deles, a proposta foi  de conexão com a Grande Mãe. Naquele momento me dei conta de que, em minha história, não aparecia essa figura arquetípica. Em minha infância, na educação religiosa, que era muito presente e central na formação moral e ética, eu só tinha entrado em contato com figuras masculinas. Mergulhei na figura da minha mãe e a pintura que veio me mostrou, naquele instante, a falta que eu-bebê senti do amor para além do seio farto. Foi intenso. 

Isso foi num sábado. Cheguei em casa e a sabedoria interna me indicou uma medicina potente. Veio-me à lembrança a Ave Maria do compositor Gustav Holst, que eu havia cantado quando era membro do Coral da Orquestra Sinfônica do Estado de SP (OSESP), e eu me pus a escutá-la. Era noite e a minha sensação foi de estar sendo acolhida no manto azul de Maria, essa Grande Mãe arquetípica. 

Na terça-feira foi dia de terapia e lá fui eu com minhas pinturas embaixo do braço para aprofundar ainda mais essa experiência e deixar aflorar o que mais estava sendo mostrado e pedindo uma cura. Novamente foi essa segunda pintura que me chamou para um novo mergulho. Nova intensidade e a transformação do que se mostrava. Agora era eu a mãe e a dor era a de não ter sido mãe nessa existência. Chorei um bocado sendo o feto e sendo a mãe. Uma nova cura nesse lugar já tantas vezes visitado se processava. Se fazia necessária a continuidade e a medicina já se apresentava novamente para mim. 

Naquela semana, por noites seguidas, eu escutei essa Ave Maria em looping, lavando minha alma, me sentindo abraçada, acolhida, protegida pela Grande Mãe, que agora eu sabia quem era. Agora tinha sentido, vivido e usufruído de sua presença e da cura que ela me proporcionou. 

Perdoei minha mãe, me perdoei por não ter sido mãe. É um lugar sensível e assim segue. Acolho, respeito, me embalo e, sempre que minha sabedoria indica, a Ave Maria de Holst se faz presente para mais uma cura.

Mônica Thiele Waghabi é caminhante da trilha da consciência. Cursa pós-graduação em Psicologia Transpessoal na Unipaz SP e se dedica ao Canto Integrativo, abordagem holística do canto. Esteve cantora, diretora musical e arranjadora do Vésper Vocal – grupo vocal feminino a cappella – e integrou o coral da Orquestra Sinfônica do Estado de SP (OSESP). Trouxe ao mundo o livro póstumo de Magro Waghabi, “Vozes do Magro – discografia comentada e arranjos selecionados” dos 15 primeiros LPs do MPB4 e é coorganizadora do livro “Samuel Kerr: arranjos corais”. É autora do livro de poemas “Caminhos do coração – as estações do amor”.

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