A tradição do Eneagrama

O Eneagrama é uma figura geométrica que representa graficamente os nove Tipos de Personalidade existentes na natureza e a forma como se interrelacionam. A palavra Eneagrama teria suas origens no idioma grego: ennea diz respeito ao número nove, e gramos indica figura, o que significaria dizer que Eneagrama é uma figura de nove pontas (Riso e Hudson, 2006).

Os mesmos autores comentam que a origem do símbolo do Eneagrama é incerta, acredita-se que tenha surgido na Babilônia, cerca de 2.500 a.C. Porém, é bem provável que, por seus conceitos intrínsecos, geometria e derivação matemática, tenha recebido influências do pensamento grego clássico e “pertença à tradição ocidental que deu origem ao judaísmo, ao cristianismo e ao islamismo, bem como à filosofia hermética e gnóstica” (Riso e Hudson, 2006, p. 29).

Em seus primórdios, o Eneagrama era usado como forma de explicar os sistemas e fenômenos do universo. Somente a partir do século IV, passa a tratar da dimensão da alma humana em seus movimentos emocionais, sofrendo a influência dos monges do cristianismo. Entre eles, destaca-se Evágrio, que sistematiza o conhecimento dos monges que habitavam os desertos do Baixo Egito. Esse monge, profundo estudioso da Matemática e da Geometria Sagrada de Pitágoras, deve ter entrado em contato também com a filosofia de Plotino e seus ensinamentos sobre o Mundo Superior, que contribuíram para compreensão das Ideias Superiores ou Ideias Santas no Eneagrama. Além disso, há indícios de que conhecia a tradição dos Terapeutas de Alexandria e sua arte de cuidar do Humano, integrando o corpo às emoções, à mente e à dimensão espiritual (Cunha, 2019). 

A tradição do Eneagrama chegou ao Ocidente apenas no século 20, por meio do mestre espiritual greco-armênio George Ivanovitch Gurdjieff, que o utilizava como forma de orientar seus discípulos na busca de seu lugar no universo e do seu propósito objetivo na vida (Palmer, 93; Riso e Hudson, 2006).

Nos anos 1950, o psicólogo Boliviano Oscar Ichazo, descobre a relação entre o símbolo e os nove Tipos de Personalidade (Riso e Hudson, 2006) e faz uma sistematização desta tradição, enriquecendo-a com elementos da psicologia moderna (Cunha, 2019). Porém, foi o psiquiatra chileno Claudio Naranjo, que aprendeu o Eneagrama com Ichazo nos anos 1970, o responsável por relacionar os Tipos do Eneagrama às categorias psiquiátricas que conhecia, ampliando as descrições iniciais do psicólogo (Riso e Hudson, 2006).

Segundo Naranjo (1997), todas as pessoas compartilham um “esqueleto mental”, uma estrutura, capaz de se dividir em um certo número de traços predeterminados. Para ele, são nove os Tipos examinados, e “não constituem simplesmente uma coleção de estilos de personalidade”. Trata-se, ao contrário, de um conjunto de estruturas de caráter organizado, com relacionamentos, contrastes, polaridades e outras relações observadas entre elas” (Naranjo, 1997, p. 57). Além disso, cada estrutura apresenta duas características centrais, a primeira diz respeito a uma maneira peculiar de distorcer a realidade, um distúrbio cognitivo oculto ou Fixação, a outra corresponde a uma tendência motivacional, uma Paixão dominante. 

Domingos Cunha (2019) afirma que o indivíduo nasce Uno com a sua Essência e, à medida que vai crescendo, sofre as tensões e as dores existentes na família. Para sobreviver à experiência da falta de amor, de proteção e de valorização, a criança fragmenta-se em relação aos seus sentimentos e estabelece comportamentos para defender e proteger sua Essência. Para cada tipo de experiência, uma Personalidade se estrutura. Porém, a Personalidade não se manifesta de forma fortuita, nem é resultado puro e simples dos acontecimentos da infância. Ela já vem predeterminada para proteger a Essência, uma “Personalidade potencial, como uma sensibilidade mais aguçada para nos protegermos daquilo que ameaça nosso ponto mais sensível, a menina dos nossos olhos, o brilho da nossa essência” (Cunha, 2019, vol.2, p. 12-14).

Garcia e Saldanha (2017) explicam que o modo de agir de cada pessoa é fruto e final de linha do desenvolvimento da Personalidade e pode limitar o que ela está predestinada a viver. Essa limitação poderia levar ao desenvolvimento de comportamentos neuróticos, pois o indivíduo identificado com o Tipo tende a dar respostas velhas às situações novas; ou normótico, pois os autores sugerem que o Tipo do Eneagrama sem ser trabalhado já apresenta uma forma de normose. Os autores concluem que essas duas patologias indicam que as percepções do indivíduo podem estar adormecidas no nível emocional, mental e espiritual de seu Ser. 

Lily e Hart (1983) esclarecem que, ao reconhecer a fixação na Personalidade como fonte de infelicidade, a pessoa está pronta para aceitar a ideia apropriada que a levaria à sua Essência, contando para isso com uma série de métodos práticos como a meditação sobre as Virtudes, o uso de mudras, respiração, canto e outros exercícios. 

Por fim, Garcia e Saldanha (2017) reconhecem o Eneagrama como um mapa para a reconexão do indivíduo com a Supraconsciência e com a Essência, apontando a necessidade de mudanças constantes a fim de remover obstáculos que prejudicam a relação com a Essência. 

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Este texto é parte intrínseca do TCC apresentado pela aprendiz Lenita Fujiwara ao término de sua formação no curso de Especialização em Psicologia Transpessoal – Cuidado Integral e a Inteireza Humano na Turma 4.


Lenita Fujiwara é redatora, reikiana, aprendiz de pós-graduação em Psicologia Transpessoal e membro da equipe de Comunicação da Unipaz SP, além de practitioner de Barras de Access e terapeuta Alquímica Floral.