Lugar de fala. Espaço de transcendência.

Gosto de lembrar que a linguagem é viva e que de vez em quando surgem expressões capazes de manifestar o potencial transformador do seu tempo. 

Lugar de Fala é uma delas. 

Não se sabe ao certo como o termo surgiu. No livro O que é lugar de Fala?, Djamila Ribeiro explica que deve ter se originado a partir de uma forma de discussão tradicional no feminismo negro, feminist stand point, ou ponto de vista feminista, que abrange “diversidade,  teoria racial crítica e pensamento decolonial.”(1)

Pela coragem e competência de intelectuais negras, que ousaram criar conhecimento a partir do seu grupo social, o lugar de fala saiu dos encontros ativistas, abriu espaço no meio acadêmico e hoje habita as redes sociais e o vocabulário de muitos de nós.

Em qualquer um desses locais, ecoa como um alerta à necessidade de se dar voz a quem foi historicamente silenciado pelo pensamento patriarcal hegemônico.

Mulheres e homens negros, povos originários, minorias sexuais, asiáticos, excluídos de todas as partes, gêneros e idades reivindicam seu lugar de fala e o direito de contar a sua história, no anseio de romper a invisibilidade e expor as injustiças e a violência que a sociedade normótica faz questão de calar.

Isso me enche de esperança, pois sei que reconhecer a dor de ser excluído e se permitir falar sobre isso, abre um espaço potente para a transcendência.

As curas para as nossas sombras pessoais e para as nossas sombras coletivas são indissociáveis.

É preciso abrir a escuta para todas as falas e reconhecer o lugar de onde elas vêm. Trilhar a cartografia da consciência e resgatar a inteireza de cada palavra em seu espectro de luz e sombra.

Questionar as Personas que criamos para justificar nossa indiferença com os que sofrem. Deixar de projetar a Sombra dos nossos medos e apegos sobre os que dormem nos viadutos. Rever os conceitos e preconceitos que herdamos do nosso Sistema Familiar. Acolher as manifestações dos que já partiram sem dizer do que precisavam. Visitar as imagens primordiais e as dores coletivas renegadas existência após existência.

Quem sabe assim, poder-se-á construir outro mundo possível. Desenhando-o no Imaginal, cobrindo-o com a luz das Estrelas e as bênçãos dos Anjos e do Aberto, para depois materializá-lo na terra firme do aqui e agora.

Este é o lugar de onde desejo falar, fazendo coro com outras vozes, para levar o som da paz ao espaço infinito de cada ser humano, indistintamente.

(1) Ribeiro, Djamila. O que é: lugar de fala? – Belo Horizonte(MG): Letramento: Justificando, 2017.

Lenita Fujiwara é Redatora, reikiana, recém-desperta da Normose e, pela forte ressonância com os Terapeutas do Deserto, é aspirante ao Colégio Internacional dos Terapeutas.

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