Movimento consciente: o que ele tem para te oferecer

Você já deve ter experimentado aquela mudança física e emocional depois de fazer alguma prática corporal. É comum começarmos de um jeito e terminarmos de outro, geralmente sentindo mais relaxamento, vivacidade e alegria.

O efeito estimulante que o exercício pode gerar na produção dos hormônios relacionados ao bem-estar já é bem conhecido, dependendo de fatores como intensidade e duração. Mas para além da fisiologia, teria o corpo outros recursos capazes de potencializar esse estado natural de bem-estar? Certamente que sim. E um deles pode vir pelas práticas de consciência corporal.

Nosso existir se dá a partir do corpo, território estruturante do ser como humano. E tudo começa com o embrião e sua morfogênese, com células se multiplicando, carregadas de potencial genético, diferenciando-se com inteligência precisa e formando cada parte deste todo chamado corpo. Não podemos desconsiderar que nosso sistema sensorial ocupa lugar de destaque nessa fase constitutiva e pós nascimento, em especial a pele. Como destaca Montagu, antropólogo inglês, “…existe uma lei embrionária geral segundo a qual quanto mais cedo se desenvolve uma função, mas fundamental ela provavelmente é. O fato é que os atributos funcionais da pele estão entre os mais básicos do organismo”1.  

Em termos de sentidos, estamos imersos numa cultura que privilegia a visão, e uma visão dos corpos acontecendo cada vez mais no plano bidimensional, já que vem intermediada pelas telas. Com a privação do tato, diminui a sensação viva do corpo, que pode tornar-se anestesiado. E um corpo anestesiado não consegue se autorregular, sendo esta uma condição natural dos organismos vivos.

Aqui entram as práticas corporais que buscam a (re)conexão com o corpo, experimentando a sua tridimensionalidade, acordando a pele, vibrando os ossos, colocando partes e todo em íntima relação através do movimento consciente, aquele que convoca a atenção para dentro. Movimento que é ao mesmo tempo investigação e construção, curiosa, livre e criativa. Que traça novas rotas pelo território-corpo, atravessa congestionamentos, abre espaços e ancora nossa presença. Está a favor da função, da dinâmica gestual e da interação, consigo, com o outro e com o ambiente.

É possível ganhar consciência corporal por meio de métodos específicos, dentro do campo da Educação Somática, como o método Feldenkrais, Eutonia, Antiginástica, Cadeias Musculares G.D.S., método Ivaldo Bertazzo, entre outros.

Como bem nos relembra Ivaldo Bertazzo2, pesquisador do movimento humano em diferentes culturas há mais de quatro décadas, o movimento é uma das manifestações do corpo, e esta parceria corpo e movimento envolve as dimensões de estrutura e função, estática e dinâmica, forma e gesto. E permite refazer caminhos internos que podem não ter acontecido no momento adequado do desenvolvimento psicomotor.

Um corpo pode estar anestesiado, mas também é capaz de reconquistar sua expressividade, entusiasmo e energia. Alexander Lowen3, médico americano criador da análise bioenergética, dedicou-se à investigação dos bloqueios dos processos vitais no corpo, como liberá-los através de movimentos específicos e suas implicações nos estados emocionais e afetivos. Além de recuperar ele mesmo seu estado natural de vivacidade e saúde, vindo a falecer dormindo com 97 anos, trabalhou durante décadas, ajudando pessoas a reencontrar este estado em si mesmas, impactando positivamente na maneira como se viam, como se sentiam e como passavam a estabelecer relações mais saudáveis.

Se começamos falando de vivacidade e alegria, Lowen nos deixa uma dica generosa no título de um de seus inúmeros livros: Alegria – a entrega ao corpo e à vida.

Feliz daquele que mora no corpo! 

1. Montagu, A. Tocar: o significado humano da pele. São Paulo: Summus, 1988.

2. Bertazzo. I. Gesto orientado: reeducação do movimento. São Paulo: Edições Sesc, 2014.

3. Lowen, A. Bioenergética. São Paulo: Summus, 1982.

Thais Alves é graduada em Educação Física (USP), pós graduada em Psicologia Transpessoal e especializada em Reeducação do Movimento – método Ivaldo Bertazzo. Dançaterapeuta pelo Centro Internacional de Dançaterapaia Maria Fux. Facilitadora credenciada da Unipaz-SP. Atende há 15 anos individualmente e em grupo e é criadora do Corpo Vivo – programa de consciência corporal pelo ritmo e pelo gesto orientado.

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