Os setênios como caminho para a individuação

A junção de duas palavras gregas bios (vida) + graphein (escrever) dão origem ao termo biografia, gênero textual utilizado para contar a história de uma pessoa. Muitas vezes fruto de entrevistas, conversas, pesquisa e coleta de dados feitas por algum escritor. Mas e quando a pessoa é convidada a examinar o ciclo de sua vida, desde a concepção até o momento atual, e escrever a respeito? No curso de Psicologia Transpessoal, temos esta oportunidade, muito bem guiada, de olhar para a nossa humanidade e nosso fluxo de crescimento, e vou compartilhar com você como foi a minha experiência. “Senta que lá vem a história…”

O que é o biográfico? É uma ferramenta de investigação profunda, um processo estruturado que leva em consideração as leis que regem cada setênio, ou seja, períodos de sete anos, em que vamos fazendo o levantamento de forma ordenada da nossa história de vida.

Diante da proposta de rememorar quem sou, juntei os meus álbuns de fotografias e, através delas, fui construindo uma linha do tempo que me permitiu entrar em profunda meditação de (re)encontro, descoberta e cura.

Fase por fase, conduzida por perguntas construídas e referenciadas pelas energias vibrantes de cada período de desenvolvimento, segundo a Antroposofia, fui me abrindo às lembranças, alegrias, anseios e sofrimentos que permearam meus passos ao longo da vida. Degustei da pausa e do silêncio, escrevendo um setênio por vez, registrando o que a memória me trazia. Insights, imagens, sentimentos e sensações chegavam ao longo dos dias, e eu anotava tudo para o momento da construção do texto. 

Assumi a autoria com a presença necessária, mesmo nos momentos de desconforto, em que senti a energia da autopreservação tentar me fazer desistir de me aprofundar. Segui confiante, pisando com muito cuidado em meu território sagrado. Chorei diante dos meus medos, dores, dúvidas, raivas, culpas e perdas. Com amorosidade, acessei a chave para ressignificar o que me pesava além da conta. 

Ao escrever a minha história, neste exercício de trazer para a consciência as lembranças interiores, observei a singularidade de cada indivíduo e sua contribuição em minha vida, notei fatos que se repetem, identifiquei minhas motivações, minhas escolhas e renúncias, os talentos que desenvolvi e até aqueles que deixei de lado. E eu, que um dia achei que não tinha feito lá muita coisa, reencontrei diversas competências que havia esquecido de lembrar, certamente não seria quem sou se não tivesse contado com a energia delas. Isso reforça a ideia de que a vida não é uma sucessão aleatória de fatos, mas um processo contínuo de desenvolvimento e transformação.

Sob a visão objetiva e panorâmica de minha biografia, pude compreender a dinâmica da minha existência, em que a vida faz um determinado traçado que me propicia uma evolução constante frente aos acontecimentos, desafios, mecanismos de defesa e freios. O fio condutor revelado explicita que a busca pelo autoconhecimento é um presente valioso, mas exige disciplina, é um convite, a todo instante, ao comprometimento.

Na escrita autobiográfica, fui terapeuta de mim, motivada por uma frase do querido Professor Dr Aurino Lima (Psicólogo Transpessoal), que ouvi durante uma aula inspiradora: “Curadores que trabalham as próprias feridas conseguem ferramentas para cuidar dos outros. O lugar de trabalho do terapeuta transpessoal é o inferno, o céu já está equilibrado. Ninguém cuida do outro sem cuidar de si. A terapia vai até onde você foi.”

E assim nessa trilha de aprendiz, no passeio pelos setênios, senti-me como uma jardineira da alma. Observei os ciclos, a ação natural do tempo, remexi no solo, adubei e molhei a terra com bons sentimentos. Com paz e gratidão, olhei e retirei os galhos secos, que já não pertencem à árvore de agora: as dores do passado e o medo de não conseguir realizar. Consciente de minhas potencialidades e singularidades, sigo regando a confiança no meu florescer e frutificar, à medida que respiro profundamente o que disse Carl Jung: “Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta.” 

Aline Caldas Cunha é pós-graduanda em Psicologia Transpessoal pela Unipaz São Paulo. Formada em Fonoaudiologia (UNIFOR) com especialização em Linguagem (UFPE) e Mestrado em Letras (UFPE).

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