Sonhos Transpessoais

No dia 15 de dezembro de 2020, uma terça-feira, iniciei uma grande aventura, quando os sintomas de COVID-19 se manifestaram; chegaram devagarinho e naquela noite os primeiros sonhos foram reveladores.

Sonhei que estava subindo a pé a Av. Rodrigues Alves e comecei a ficar cansado, então sentei no banco da praça, duas quadras acima de onde moro; ali, fiquei contemplando o movimento das pessoas naquela bela manhã e notei que no subsolo do grande edifício recém inaugurado havia um novo Posto de Saúde distribuindo medicação contra COVID-19; muito bem atendido, tomei um comprimido com a recomendação de só sair de lá quando o cansaço desaparecesse; não conseguia levantar do lugar e depois de muito esforço, dirigi-me para um atendimento clínico privado novo em frente e fiquei aguardando ser atendido; depois de muito tempo fui recebido por uma médica oriental, que se pôs a me massagear com música clássica ambiental e óleos especiais; já era noite quando voltei para casa, com uma sensação estranha de não distinguir entre  sonho e realidade, mas não tive dúvida depois de algum tempo, de que o sonho era a minha realidade.

No dia seguinte participei da Roda de Escuta da Unipaz, coordenando com a Célia, e algumas pessoas revelaram seu medo da COVID-19.

À tarde, sentindo-me cansado fui relaxar e, outra vez, sonhei que estava no mesmo Posto de Saúde e novamente bem atendido, fiquei sem conseguir me levantar por muito tempo e voltei para casa por outro caminho,  via Rua Domingos de Morais;  parei numa clínica nova luxuosa, chinesa, onde fui atendido por um médico extremamente formal e que me recomendou novas massagens; lá permaneci muito tempo e tive que pagar uma fortuna para poder sair; fui caminhando já tarde da noite, descendo a Av. Rodrigues Alves em direção à minha residência.

Acordei e comentei com Nereide que eu estava me sentindo muito esquisito; jantamos, e voltei para a cama de tão cansado que me sentia.

Sonhei que meu filho Marcos tinha me chamado para uma reunião em seu novo escritório, perto da Av. Paulista; lá chegando, deparei-me com uma luxuosa entrada em estilo chinês, onde sentei na única e bela poltrona existente ao lado da porta e uma voz pediu para fechar a porta; a poltrona girou e como num elevador começou a subir; parou e deslizou num salão onde meu filho se encontrava; ele explicou em detalhes seu novo empreendimento e pediu-me para levar uns documentos para uma pessoa que os esperava num lugar de eventos, no bairro do Campo Belo; lá fui eu, e lá chegando fui muito bem recebido e como não havia nenhum evento ficamos conversando numa sala reservada; não consegui mais me levantar de tão cansado que estava e liguei tarde da noite para meu filho pedindo que me fosse buscar; ele chegou lá pela meia noite com meu neto Mateus e me deram um banho para me reanimar e me levaram para casa. Quando acordei tinha certeza de que meu sonho tinha sido intensamente vivido como realidade e de que tinha que ir novamente para o Posto de Saúde tomar o remédio preventivo, mas como tinha que atender um paciente, na forma virtual, decidi fazê-lo com tranquilidade. 

Depois do almoço, alegando grande cansaço, adormeci e sonhei que Marcos queria que eu me encontrasse com ele para assistir a uma apresentação de uma nova tecnologia de Gestão, usando inteligência artificial, num salão em um Parque novo na zona norte de São Paulo; lá fui eu e lá chegando com um calor infernal, subi por uma escada rolante que dava acesso ao auditório, com um ar condicionado muito frio e assisti à palestra de meu filho; com grande entusiasmo comentamos muito sobre o futuro que estava chegando e que a nova tecnologia de gestão poderia resolver parcialmente os desafios de nossa sociedade. Saí e atravessei o parque naquele calor infernal, e caminhei perdido até chegar numa espécie de Hotel onde resolvi descansar.

Acordei e relatei à Nereide minha ida ao Parque com a sensação de que meu sonho tinha sido realidade e que por isso eu estava muito cansado e que iria dormir logo em seguida ao jantar; ela disse que também não estava bem e pela primeira vez desconfiamos de que sintomas de COVID-19, poderíamos estar sentindo.

Na manhã seguinte, sexta-feira, dia 18, acordei um pouco confuso e liguei para meu médico Dr. Salim, do Hospital Sírio Libanês, que disse sem pestanejar: “Venham imediatamente para o Pronto Atendimento de COVID-19 do Sírio”. 

Como eu me sentia confuso, pedi que Nereide dirigisse e lá chegando fomos para a triagem; eu fui para uma cela no subsolo, monitorado e colocado no soro com medicação, além de oxigênio. Nereide foi para o oitavo andar, pois seus sintomas eram leves e logo depois seria dispensada. Recuperado da confusão mental, conversei com Ele, dizendo: “Senhor, faça-se a sua vontade; se tiver que ir estou pronto; se ficar, também estou disponível.” No fim do dia, fui para uma ala de COVID-19 num quarto isolado; minha oxigenação não subia, embora eu não tivesse falta de ar. Alguns dias depois, fui transferido para a UTI e novamente passei a não mais distinguir o sonho da realidade, perdendo a noção de tempo e espaço.

Fiquei intubado do dia 29 de dezembro até o dia 10 de janeiro; desse período não tenho nenhum registro na memória; fiquei na UTI por uma semana, vivenciando experiências de consciência ampliada, cujos relatos sem preocupação cronológica, são aqui descritos.

1 – Sonho de Natal

Fui avisado de que tinha um presente na portaria e que era uma imensa taça de sorvete de pistache; disse à enfermeira que o distribuísse pela equipe de atendimento e que eu não podia tomar minha parte; junto veio uma descrição do Dia de São Nicolau e de seus significados subjacentes, preparada pelo meu irmão Dalmo, que assinava o cartão do presente junto com minha prima Inajá. Pedi para reproduzir a descrição do dia de São Nicolau e distribuir a cada membro da equipe com os meus votos de Feliz Natal e Próspero ano de 2021 e fiquei acompanhando o movimento da comemoração coletiva e recebendo os agradecimentos de cada profissional.

Nereide tinha levado pequenos pacotes de Pão de Mel e distribuído a todos; quando vinham me agradecer, perguntava se tinham gostado do sorvete; todos sorriam dizendo que sim. A realidade para mim era aquela vivida no sonho. 

2 – Sonho do Céu

Todos os dias pelas seis horas da manhã a enfermeira fazia quatro perguntas: a) Meu nome completo; b) Minha data de nascimento; c) Onde eu estava; d) Qual a data do dia. Respondi corretamente às duas primeiras e na terceira pergunta disse que estava no Paraíso; tudo era muito lindo, cheio de luz, com passarelas automáticas e escadas rolantes e eu sentia uma paz enorme por estar próximo a Deus. A enfermeira nem fez a quarta pergunta e disse que meu semblante refletia luz e alegria; disse que tinha feito uma passagem tranquila e que estava pronto para vivenciar esse novo nível. Depois desse sonho passei a conversar muito com os atendentes, aconselhando sobre as atitudes a serem tomadas face às diversas demandas e ao grande stress coletivo, que eu observava nos movimentos agitados da UTI.

3 – Experiência de viagem fora do corpo

Senti que eu estava fora de meu corpo, voando pela UTI e observando pelas janelas os movimentos externos das pessoas que tentavam se abrigar da chuva torrencial. Um micro-ônibus trazia os funcionários, que entravam pela UTI correndo e molhados; via meu corpo deitado no leito e observava cada vizinho: um velho alemão que tossia sem parar, uma pessoa intubada, que viria a falecer dois dias depois, e outra pessoa em grande agitação, exigindo presença do médico chefe da UTI, que realizava esforços para mantê-lo vivo; faleceu em seguida e percebi que era um artista famoso da periferia de São Paulo, escultor e poeta; chegaram repórteres das Tvs, e outros jornalistas, e eu acompanhava as entrevistas do lado de fora da UTI e a aglomeração de pessoas na porta do Hospital Sírio Libanês e comecei a ficar deprimido; voltei para o meu corpo e chamei socorro, pois estava me sentindo mal; comecei a ser transportado numa maca para outra UTI, mas o movimento causado pela morte do artista impedia a passagem da maca e fiquei assistindo a confusão com muitas dores. Acabei voltando para o meu lugar.

Quando Nereide chegou no horário de visita, narrei o ocorrido perguntando se ela tinha assistido às entrevistas no Jornal Hoje da Globo;

Ela de nada sabia, o que me deixou muito confuso, pois tudo fora tão real para mim.

4 – Sonho da Missa de sétimo dia

Sonhei que tínhamos ido à missa de sétimo dia do artista; o lugar era bonito, com uma capela no meio do jardim onde seria feita a celebração; a esposa do artista estava presente e Nereide ficou conversando com ela; entregou uma doação que havia recolhido com amigos, para aliviar seu desamparo. Após a missa, caminhamos para o jardim e de lá começamos a ver fogos de artifício e muita fumaça, anunciando um novo tempo de desenvolvimento nas artes e novas formas de arte performática.

Voltamos para o Hospital a tempo de eu ser esclarecido sobre as técnicas de deglutição da nutricionista, que combinou comigo a realização de testes especiais; falava aos gritos, dando ordens sem discutir. Acalmei-a dizendo que faria tudo direitinho e que não se preocupasse.

Na visita diária, perguntei à Nereide se ela tinha explicado a origem das doações à viúva do artista e ela nada sabia do assunto; mais uma vez a realidade jogava uma dúvida sobre as minhas vivências vividas.

5 – Sonho da visita à Universidade

Sonhei que fui visitar a Universidade anexa ao Hospital Sírio Libanês, indo numa espécie de carrinho de golfe, passando pela garagem do Hospital e atravessando imensos corredores; cheguei a uma sala onde havia pessoas de diversas nacionalidades, que discutiam programas de saúde preventivos, ensinavam técnicas de jardinagem e de desenho artístico.

Lá estava a nutricionista que novamente começou a me dar ordens aos gritos e eu desta vez procurei negociar com ela a não aceitação de suas ordens; na volta, não conseguia descer do carrinho perto da UTI e na garagem entrei no consultório médico de coordenação da COVID-19, onde se encontrava o Dr. Salim; pedi a ele que me autorizasse a passear todos os dias pelos jardins, do que  fui dissuadido por ele e voltei para o meu leito de UTI; no dia seguinte no almoço a nutricionista fez os testes de deglutição e eu comentei que ela era muito autoritária e deveria ser como a equipe de atendimento, carinhosa e sempre presente, o que a deixou muito surpresa.

6 – Experiências com uma luz branca

Senti que estava vindo uma grande onda de luz branca à minha esquerda do leito; virei-me com grande dificuldade, e a luz começou a entrar pelo topo de minha cabeça, bem devagar, avançando por dentro, enchendo meus pulmões de intensa alegria; uma nova energia emergia de dentro para fora e me propiciava confiança e determinação de novo sentido para a minha vida; eram seis da tarde e um coro de anjos cantava ao longe “Tantum Ergo Sacramentum”, música que eu cantava na Igreja quando criança.

Uma enfermeira me perguntou: “Por que o senhor está tão feliz e com um sorriso luminoso de alegria?” Respondi que estava recebendo orações e muita energia e que vinham de várias origens; ela me confirmou que passava das seis da tarde, a hora da Ave Maria.

Essa luz branca invadiu-me novamente por diversas vezes enchendo meu coração de alegria.

Fui transferido da UTI para um quarto semi-UTI enorme. Nereide contratou uma empresa de Home Care, pois eu continuaria isolado na área de COVID-19 do Sírio. Chegou Maria, um anjo, para cuidar de mim e me ajudar a reaprender a andar, comer, respirar e tal qual uma criança, aprender a crescer. Na viagem de transferência da UTI para a semi-UTI pelos longos corredores do Sírio, Nereide foi convocada para acompanhar a enfermeira chefe e me entregar na outra ala; no trajeto as duas conversaram muita e na despedida a enfermeira disse: “Ele vai fazer muita falta para nós, pois nos acalmava e nos orientava”. Sou eternamente agradecido a todos que me atenderam e me honraram com seus serviços, sempre sorridentes e solícitos; uma grande lição de delicadeza aliada à dedicação.

Fiquei uma semana na semi-UTI sempre com oxigênio; quando já caminhava sozinho e conseguia tomar banho, fui transferido para um quarto normal e no dia 28 de janeiro recebi alta com duas condições:  manter inalação de oxigênio 24 horas por dia e realizar fisioterapia todos os dias; meu reaprendizado de viver durou mais quatro meses e ficou uma sequela pulmonar, denominada de vidro fosco, que diminuiria gradativamente, aumentando meu fôlego. Foram 41 dias internado, nos quais realizei 434 exames, ocupei 5 instalações diferentes, recebi 105 visitas médicas, fiz 63 fisioterapias respiratórias, recebi 7 visitas nutricionais e 21 visitas de fonoaudiólogas e ainda, centenas de visitas angelicais.

Um renascimento completo com um novo olhar para a vida: viver na essencialidade e em paz com muita alegria e desapego.  

Flávio Corrêa Próspero nascido em São Paulo, capital. Graduado em engenharia mecânica de produção pela Epusp, pós-graduado em administração de empresas pela FGV, psicodramatista, professor da cadeira de gerenciamento de projetos da FGVSP por 30 anos, Presidente da Sorri Brasil por 15 anos, presidente da ABQV por 6 anos , Presidente do Conselho do IBQV em Brasília por 5 anos. Terapeuta de Psicologia Transpessoal pela Unipaz SP e conselheiro da Unipaz SP. Autor de 3 livros, o último denominado de “ Gestão da Vida”. Sócio da Logos Engenharia S.A. por 25 anos.

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