Tarô: Transformação Pessoal & Apoio no Setting Terapêutico

Como nossa amada Mafalda declara:
“Justo a mim me coube ser eu.”

Iniciamos pela compreensão de que a Psicologia Transpessoal é o ramo da psicologia que explora os diversos estados de consciência e os aspectos da espiritualidade que transcendem o indivíduo.  Neste sentido o tarô se apresenta como um instrumento que extrapola as fronteiras do corpo e mente da pessoa, acessando informações de resíduos arcaicos ou arquétipos, como nos apresenta Jung.

Considerar essa visão do inconsciente coletivo de Jung nos permite uma conversa esclarecedora sobre o uso do tarô terapeuticamente, pois a partir do momento em que o tarô viabiliza o acesso a elementos do inconsciente coletivo, ou mesmo a projeções do inconsciente pessoal do paciente, tem-se o potencial de ampliação da percepção deste paciente sobre sua realidade e, portanto, uma vivência da realidade distinta da vivenciada no momento anterior ao uso do tarô na abordagem de autoconhecimento.

Soma-se o Cuidado Integral, que não exclui nenhuma dimensão do ser, pois o uso do tarô no ambiente do setting terapêutico integra as quatro funções psíquicas de Jung, (i) a função sensação, em  resposta aos estímulos das imagens, (ii) a função intuição em que  emergem percepções do  inconsciente, (iii)  a função pensamento, que emerge em razão dos questionamentos devidamente conduzidos  pelo terapeuta, e (iv) a função sentimento, que gera emoções, sentimentos, que são processados com o apoio  do terapeuta. 

As lâminas do tarô também abordam diversas dimensões da vida humana, da seguinte forma:

  • Elementos arquetípicos do inconsciente coletivo principalmente em seus 22 Arcanos Maiores;
  • 16 perfis de atitudes pessoais nas Cartas da Corte; e
  • Expressões da vida cotidiana em quatro aspectos manifestados pelos naipes dos Arcanos Menores: (i) Naipe de Paus: manifestação da energia e dos instintos, (ii) Naipe de Copas: estados emocionais, (iii) Naipe de Espadas: estado mental e seus mecanismos; (iv) Naipe de Ouros: a relação com o corpo físico e com o mundo material.

Desta forma, as 78 lâminas do tarô nos apresentam um nível importante de integralidade da compreensão da experiência humana, seus comportamentos, emoções e sentimentos.

O Uso do Tarô no Setting Terapêutico

Uma das premissas para o uso terapêutico do tarô é que apesar das lâminas dos 22 Arcanos Maiores representarem imagens arquetípicas, por serem uma representação consciente do artista que o cria, elas não abarcam toda a complexidade das imagens primordiais, fazendo-o apenas de forma parcial, como observado  por Jung. Assim, abre-se espaço para que o paciente, ao observar essas imagens, complemente com sua percepção intuitiva a perspectiva do arquétipo em seu contexto de vida. De forma que, mais importante que a explicação teórica, proposta pelo criador do tarô em relação à sua obra, é a compreensão intuída do paciente ao correlacionar a imagem observada ao seu contexto de vida.

Pode-se associar a interpretação das imagens arquetípicas do tarô à elaboração das imagens e conteúdos simbólicos dos sonhos, pois como o próprio Jung analisou exaustivamente em seus estudos, os sonhos são suscetíveis a muitas interpretações. Esta questão gera algumas discordâncias originadas no fato de que seus conteúdos são simbólicos e oferecem, portanto, uma miríade de interpretações, uma vez que {…} os símbolos apontam direções diferentes daquelas que percebemos com a nossa mente consciente; e, portanto, relacionam-se com coisas inconscientes, ou apenas parcialmente conscientes. (JUNG). Ainda, em relação à percepção dos símbolos arquetípicos apresentados nas lâminas, Jung destaca  a importância da intuição, para ele “um elemento quase indispensável na interpretação dos símbolos, que graças a ela [a intuição], são muitas vezes imediatamente percebidos pelo sonhador”. (JUNG). 

Disso sobressai o fato de que no ambiente terapêutico transpessoal, a prática do tarô passa pela percepção intuitiva do paciente das imagens primordiais, bem como pela compreensão cognitiva e intuitiva do terapeuta em relação às lâminas. Ou seja,  o terapeuta usa seu repertório em relação ao tarô no sentido de ampliar a compreensão do paciente em relação à sua questão, com questionamentos e comentários a partir das imagens arquetípicas representadas nas lâminas. Nesta proposta, a última palavra é a do paciente, aqui a interpretação das lâminas pertence ao paciente pois, como já descrito, são as suas projeções inconscientes que definem a interpretação das lâminas e a compreensão de sua própria realidade.

Na prática terapêutica, podem-se usar duas formas de escolha da lâmina, uma com as cartas abertas na frente do paciente e a outra com as cartas voltadas para baixo. Na técnica das cartas abertas na frente do paciente, este é estimulado  a, concentrado na sua questão específica, escolher intuitivamente um dos 22 arcanos maiores, o que lhe chamar mais atenção. E a partir desta escolha o terapeuta inicia sua pesquisa por meio de questionamentos.

Na segunda forma, com as cartas voltadas para baixo, o terapeuta dispõe as lâminas fechadas de forma que o paciente, concentrado em sua questão, escolha a lâmina de forma aleatória, pois vê apenas o verso das lâminas. Após a escolha, o procedimento é semelhante. O terapeuta pergunta qual a percepção do paciente, e na sequência são realizados questionamentos abertos para a ampliação da compreensão da realidade do paciente. Nesta segunda forma, compreende-se que se estabelece um princípio de conexão acausal entre a lâmina escolhida e o contexto de vida em análise pelo paciente, que Jung (2005) denominou sincronicidade. 

Aprendizados com a Pesquisa e o Uso do Tarô no Setting Terapêutico

Entre vários aprendizados obtidos na experiência com o tarô no setting terapêutico, pudemos observar que os arquétipos expostos nas lâminas do tarô, por apresentarem parcialmente as imagens primordiais, funcionaram como instrumento de ampliação da consciência, onde os pacientes que selecionam as lâminas acessam a sua percepção inconsciente em relação aos arquétipos projetada em sua compreensão das imagens.

E este processo independe do tarô, pode-se usar o Tarô de Crowley, Mitológico, Wait, ou outros com a estrutura de 78 lâminas, observa-se que o nível de clareza dos pacientes em relação às suas realidades cresce significativamente.

Consideramos que nas vivências com os pacientes, os insights pessoais proporcionados pelas lâminas do tarô poderiam dizer coisas diferentes para pessoas diferentes, falar coisas diversas, conforme o momento,  dizer muito ou não dizer nada. Ou seja, no momento em que estas imagens e símbolos sensibilizam os pacientes em relação às suas questões e dilemas, observa-se um fenômeno que podemos chamar de “reunião”.  É como se o paciente, a experiência e o mundo estivessem reunidos. Observou-se uma sensação de harmonia. Nessa experiência de reunião houve uma experiência de intimidade. Esse clima de presença e intimidade dos pacientes permitiu um recordar algo, este recordado diz respeito a uma sensação de que, ao mostrar-se, a coisa estava presente havia muito tempo. Tudo se passa como se houvesse um reencontro.

Essa intimidade de uma reunião acolhedora, vivida nessas experiências de compreensão e clareza de si mesmo,  possibilitou uma sensação reveladora e agradável, um momento de encantamento, em que a existência suporta os desdobramentos daquilo que pode ser e que se realiza através do vivenciado.

Assim, considerar o que o paciente apresenta, ir atrás de seu significado naquele caso especial, único, um significado que pode mesmo contrariar qualquer simbologia prévia das lâminas do tarô sem, contudo, ignorar a riqueza que a lâmina em si  possui, é imprescindível para  que essa prática possa ser considerada uma ferramenta de autoconhecimento e faça parte de um processo terapêutico transpessoal.

O desafio é, conhecendo a simbologia de cada lâmina, conseguir manter o pensamento aberto para permanecer diante de cada caso. Estar livre desse conhecimento não significa que nosso pensamento tenha que ficar na ausência completa de referências. Aliás, nem seria possível uma coisa dessas, porque somos integrados no mundo, mundo esse que é entrelaçamento de referências conscientes e inconscientes: nosso fazer, nosso falar, nosso pensar sempre acontecem na referência a algo que lhes dá sentido. Entendemos a terapia como um trabalho de deixar que as coisas apareçam com seus significados, reuni-los e permitir que os sentidos se articulem.

Entendemos também que o  trabalho terapêutico é de pensamento, faz uso da linguagem, mas incluímos aqui o exercício intuitivo, tendo a manipulação, escolha, observação e interpretação das lâminas do tarô como instrumentos de despertar do contato com esta função psíquica, acessando os “resíduos arcaicos” citados por Jung. 

Neste sentido, o trabalho terapêutico pode ser visto como  artesanal, já que não pode vir pronto, é peça única, destinado a cada um. Só pode ser realizado no momento em que o paciente está presente. E mais: só será feito com ele. Terapeuta e paciente pensam e sentem juntos. Esse trabalho de ampliação pelas lâminas do tarô é destinado a cada um, a cada situação, não é aquele artesanal que poderia já estar pronto à espera de quem o levasse. Ele só será realizado no momento em que  paciente e terapeuta estiverem presentes, e só será feito com eles.

Artesanal também diz respeito a algo feito com as mãos. E são estas mãos que no ambiente transpessoal irão manipular as lâminas, escolher aquelas coerentes com os aspectos inconscientes do paciente e, portanto, abrir portas de ampliação de consciência rumo ao cuidado integral do companheiro evolutivo.

Muito ainda há por explorar neste campo, do ponto de vista científico, mas os primeiros passos estão sendo dados, por este trabalho e outros que nos antecederam, e muitos que serão realizados no futuro, o fato é que este instrumento cumpre um papel importante no processo de individuação das pessoas.

Este texto está baseado no artigo elaborado por Gabriela e Cesar como trabalho de pesquisa de conclusão de curso da Psicologia Transpessoal e propõe uma abordagem do Tarô no Setting Terapêutico que potencialize o processo de individuação do ser, pela apropriação de si mesmo!


Gabriela Gomiero é pós-graduada em Psicopedagogia, Pedagogia da Cooperação e Culturas de Paz e Psicologia Transpessoal. Psicóloga clínica e escolar do Colégio Coc Novomundo de Praia Grande,   desde 1997.


Cesar Caminha é Terapeuta Transpessoal, Economista e Designer de Estratégias. Tem desenvolvido atividades voltadas para o desenvolvimento humano desde 1994, quando trabalhava na Caixa Econômica Federal e depois na Amana-Key, focando na formação de lideranças empresariais. Mais recentemente tem trabalhado em projetos de Planejamento Estratégico Situacional para governos, iniciativa privada e organizações sociais.

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